Sábado, 19 de Julho de 2008

Bárbara Tardia


Assim seja. Sob a névoa da alfazema e a providencial intercessão dos santos, amém a tudo e a todos - aflições, alívios, destemperos, calmarias. Haveria mesmo de chegar a hora e a idade em que o melhor era aceitar tudo. Desse jeito tinha de ser um dia.

Fechou a porta do oratório, caminhou até a sala e tirou da estante um livro que nada tinha a ver com o seu estado. Acendeu a lareira, abriu um vinho, sentou-se. O coração quieto, o ouvido atento ao crepitar da lenha, nunca esteve tão disposto a colocar alinhadinhos cada um dos pensamentos. Gostava do domínio linear das coisas, de dar ordenamento e organização a tudo. Tentou ler.. Via as palavras sem captar direito seu sentido. Poderia ligar o aparelho e ouvir alguma música, mas não se atrevia a pôr de pé seu ser plasmado na poltrona. Era a isso que se reduzia, uma vida fossilizada naquele ermo pastoril. O vento chicoteando a vidraça, as xícaras tremulando, o pó se acumulando sobre a farta biblioteca que seu pai deixou. Do Pequeno Príncipe a Sófocles. O cachorro se achega e se amontoa aos seus pés, aproveitando uma beirinha de manta. O vinho ia aos poucos laceando o raciocínio, dando corda aos devaneios. Viu o seu reflexo, distorcido, na prataria de família. Parecia uma figura de Modigliani. Acima da lareira jazia o retrato do avô com seu olhar de Torquemada, a ditar cânones e a citar genealogias.


Bárbara devia estar a caminho, disse que vinha sem falta. No oco daquele silêncio, escutaria de longe o carro quando estivesse chegando. Era uma doida, mesmo. Ria e falava alto pelos corredores longos e ecoantes do hotel onde tantas vezes se encontraram. Gostava dos escândalos, não tinha meias medidas, tudo precisava ser muito, intensamente e quando bem entendesse. Sempre foi assim, aprendeu a aceitá-la e a desejá-la sobretudo por aqueles seus defeitos. Ele próprio talvez fosse o maior defeito dela. Daqui a pouco o cachorro sairia dos seus pés e correria até a porteira, fazendo festa para a velha conhecida. Ela viria fresca, como se tivesse acabado de sair do banho. Mesmo depois das seis horas de viagem. Mesmo com as rugas vincando e o estrógeno já escasso. Mesmo com o bom senso dos parentes e amigos dizendo que não, que era loucura.


Segunda taça, já pela metade. Roía as unhas, Bárbara não chegava. Puxou o cordão, deixou semi-aberta a persiana. E pelas frestas iam passando novelos de muitas meadas, a se perderem em labirintos de hera. Sentia o ranger de uma roldana enferrujada em sua cabeça, que ia tirando devagar as querenças e desafetos do seu poço. Matar a sede não matava, mas revolvia a água parada - o que já era alguma coisa. Que pensamentos alinhadinhos, que nada. Ao olhar para as estrelas, deu um giro e perdeu o eixo. Só não caiu pois se agarrou com toda força num poema de Pessoa. Olhou o relógio: dez para as oito nos algarismos romanos dos cebolões, dos carrilhões dos mosteiros, dos cucos das tias velhas, dos digitais made in China. É isso, pensava ele, a única maneira da passagem do tempo ser de alguma forma bela: através dos lindos mostradores de relógio.


Bárbara sofreu, sim. Teve que se virar como pôde depois da morte do marido. Foi de repente, um assalto no semáforo. Nunca desconfiou de nada, o coitado. Acreditava que as saídas dela eram mesmo a trabalho. Crédulo demais. Imagina se ela, bibliotecária de órgão público, precisava viajar tanto. Nas tardes vazias do ofício foi que cismou de escrever. E escrevia escorreitamente, deitava no papel o que vinha à cabeça, sem caprichos de coesão, estilo ou nexo. Prosa desordenada, sempre em primeira pessoa. Às vezes mostrava a ele o que fazia. Não gostava nem desgostava. Sorria, de vez em quando elogiava, logo mudava de assunto, sugeria a volta pra cama.


Ele nunca quis escrever. Passava muito bem sem nenhuma idéia em mente. Durante alguns anos teve um diário. Cadernos que mantinha escondidos, depois relidos e prudentemente queimados. Pensava naqueles sujeitos todos, escritores que às vezes via em entrevistas na televisão, falando de inspiração e compulsão pela escrita, em anotar idéias nos guardanapos de restaurante, em ter insights fazendo a barba e outros clichês.

Elcius latiu e abanou o rabo. Era Bárbara que chegava, junto com Veridiana. Da cozinha, um cheiro bom de bolinho de chuva.Foram entrando sem bater à porta, Elcius se enfiando entre suas pernas. As botas de salto altíssimo batendo nos lajotões. A Bárbara de sempre, imperativa e dominadora, dando ordens aos criados.Há muito não via Veridiana.. Uns quatro anos mais nova que eles, observava com atenção cada detalhe da sala, pondo e tirando compulsivamente os óculos ovais. Enfim cedia aos insistentes convites de conhecer a estância.

Passava de meia-noite quando se recolheram. No leito, virando de um lado para o outro, a roldana enferrujada não parava de ranger. O barulho acordou as duas, no quarto ao lado. Não, não estava acontecendo. Bárbara e Veridiana, diáfanas e seminuas à sua frente. E não era sonho, tampouco efeito do vinho. Na manhã seguinte, contritos, foram os três ao oratório.

Poema

BRANCO

Alvo da investigação

miro o corpo

e atravesso as cores

onde se esconde.

Branco: o susto invade

o dia sem segredos.

Observo o olho semicerrado

com que a arma mira

o condenado.

Branco: a memória cede espaço

ao presente. O tiro parte.

Olho o alvo investigado

na constância do pecado.

Branco: intercalada cor

sem novidade.

(Pedro Du Bois, inédito)

Terça-feira, 15 de Julho de 2008

Poema de Pedro Du Bois: Aquele Homem

AQUELE HOMEM

Aquele homem contando suas moedas: repetição

em farsa decorrente de ouvir histórias. A manutenção

da memória como evidência e prova. As moedas

dentro da bolsa. O bolso recheado de pecados.

(culpa e remorso)

Sobre a colina entre tantas

repousa a árvore determinada

ao fracasso: a que seca

e não se reproduz em frutos:

sustentado corpo encordoado.

(as moedas roubadas

de imediato: rasgada a bolsa

rasgado o bolso

enforcado o corpo)

(Pedro Du Bois, inédito)

Sexta-feira, 11 de Julho de 2008

Um conto de Maura Lopes Cançado: O Sofredor do Ver

Ando deveras muito preocupada com o que se passa ao meu redor. Não que tema morrer; em vez disso, sindo medo de me ver eternizada em bloco de pedra, ou mesmo continuar como estou: esperando, esperando, apenas esperando salvar-me dos rostos quadrados, fugir e encontrar pessoas com as quais possa falar, sem que minhas palavras se percam no vácuo, inúteis. Porque vivo sozinha num mundo cada vez mais estranho, fantástico, monstruoso. Não que as coisas tenham se modificado tanto. Desde menina este encarceramento me sufoca, minha coragem foi sempre formada do desejo de evasão, o desespero de fuga deu-me forças até hoje. Ignoro mesmo se existe um lugar onde se movam pessoas e esta dúvida pode ser a causa da crescente inquietação que me domina, pois ameaça ruir minha única esperança. Não: tudo se agravou mesmo depois da morte do espelho.

Não costumo sair de casa. Os dias são distantes, depressa, e quase nunca há sol. Habito um apartamento de andar térreo, um pouco escuro, ainda curante o dia, luxuoso e antigo, onde moram três outras criaturas. Ignoro porque moramos juntas. Conheço-as há pouco tempo. São mais ou menos parecidas com as que tenho visto, apesar de sabê-las mais perigosas - decerto pela proximidade. (Na verdade, gostaria de me mudar. Conheço, porém, a inutilidade das mudanças.) Falam demais, andam constantemente armadas, usam com ferocidade os dentes. Estão sempre gordas de razão. Esqueci-me de dizer que são mulheres, estas tremandas criaturas. Apesar deste detalhes, uma delas deixou crescer vasto bigode, que a tornou um pouco mais simpática, ocultando-lhe as presas, fortes, ameaçadoras. Ao levantar-me de manhã, para ir à cozinha fazer meu café, encontro-a, articulando a possante madíbula, no trabalho pertinaz da primeira refeição. Cumprimento-a delicadamente, esforçando-me em parecer afável. Tenho por resposta o rosnar ameaçador de como se protege a caça. Nem sempre consigo tomar até o fim o meu café. A criatura rosna impaciente, às vezes uiva, dançando pela cozinha, dando-me a impressão de grande exagero na sua manisfestação, creio, de alegria.

Volto ao quarto e me deito sob os cobertores, enquanto outra se veste rápida, precisa, para chegar na hora exata à primeira aula do Curso de Geologia. (Ocupamos as duas o mesmo quarto.) Antes de sair, faz ginástica. Conseguiu desenvolver de tal modo os músculos das pernas que, por várias vezes, julguei entrar um edifício inteiro pelo quarto, em sua construção exótica: pilares gigantescos sustentando pequeno tronco, enquanto a cabeça rodava, bola, distante e pequena como a cabeça de um alfinete. Após a ginástica arruma, sempre ráp[ida, precisa, a metade do aposento que lhe pertence, jogando, debaixo e mesmo sobre minha cama, grandes pedras, por ela colhidas diariamente nas praias. Pedras personalíssimas, quase vivas, que já me tomam a metade do leito. Encolho-me sob os cobertores, as pedras ocupando sempre mais espaço, atiradas pela intrépida criatura: mecânica-rápida-organizada. Gostaria de impedir que meu corpo se expusesse diariamente a estas pedradas. Não vejo solução, já que deitar-me sob os cobertores é a maior proteção por mim encontrada. Se abandonar o quarto, enfrentando olhares antropófagos nas ruas, corro o risco de, ao voltar, achar toda a cama tomada. E me sentiria impossível argumentar com as pedras, eu que sou destituída de qualquer senso de organização, mesmo iniciativa.

Não que me ache conformada. Tentei protestar uma vez mas a estudante continuou, so9lene, limpando os móveis. Depois, sem pressa, meteu-me uma grande pedra na boca, deixando tranqüila o quarto. Mais tarde, escutei-a relinchando na sala para as outras, que eu cacarejo demais e não sei marchar. Não a compreendi. Ainda assim fui possuída de grande raiva, tomei de uma arma esquecida por uma delas na dadeira, tentei atingi-la nas costas. Não consegui e terminei amarrada em trouxa dentro de meu próprio cobertor, onde passei dois dias. Ao libertar-me, grunhiu qualquer coisa, como sentir pena dos meus compromissos. Que ignoro quais sejam.

A terceira criatura é tirana - e muito boa pessoa. P:roibiu-me mover rápido a cabeça para os lados, temendo que o ar sinta-se demais agredido. Assim, ando pelo apartamento buscando ver sempre o que está à minha frente. Se me viro, faço-o com delicadez. Esse cuidado me traz em constante tensão. É uma mulher pequena, rosto quadrado, cabelos duros de torre; vai sempre ao cabelereiro. Costumo confundi-la com os objetos da casa.

Como já disse, evito sair à rua. Os edifícios me ameaçam, as mãos frias do vento me sufocam. Além dos olhares assassinos e da velocidade; pessoas enormes deslizam ruidosas pela cidade, conduzindo dentro delas outras pessoas. Posso vê-las quando arrisco meu olhar assombrado pelas janelas dos seus ventres.

Não prefiro coisa alguma. No entanto, saio às vezes, principalmente à noite. Vem buscar-me um ser que desconheço - embora venha buscar-me. Mostra-me os dentes, parece quase sempre irritado, joga-me porta a fora como se eu fosse um saco de abóboras. Costuma também relinchar, mostrando toda ferocidde nos dentes brancos. Nas ruas, busca proteger-me. Apesar de já me haver deixado sozinha, entregue às feras, habitantes de um certo subúrbio. Este ser talvez me quisesse dizer algo. Vejo-o luzente, vestido de alumínio, brilhando de noite à minha frente. Não seria sua maneira de rir? Indago-me se essa lata possui um coração.

Além dele, visita-me, não se para quê, outra criatura, um pedaço de tronco fino de árvore. Sentado à minha frente, discorre longamente sobre pulgas, galinhas e percevejos. Depois do quê, sai sem se despedir, encolhido em sua própria casca, morena, rugosa.



Ruas fervilham. Duelos se dão e todo instante. Mulheres se odeiam, beijando faces umas das outras. Muitas enxertam carne de vaca nas nádegas. Nem por isso perdem o jeito mau e duro de andar. Mostram as presas, se as olhamos dão constantes coices. Homens comem ávidos, o hálito podre provocando náusea. Mas é então que as fêmeas se agitam de todo, coiceam e relincham, movendo caudas e crinas. O asfalto queima.

Encolho-me no apartamento, sofrendo a presença das três horrendas criaturas. Gostaria de viver sozinha, ou pelo menos possuir um quarto, onde não me atormentassem tanto. Móveis animados passeiam o dia todo pelo aposento. Ouço ruídos esquisitos.
Tudo se tornou demais difícil depois do crime da futura geóloga, assassinando o espelho com uma pedrada. Considero esse crime a maior desgraça em minha vida, inútil, calada, vazia. Foi o espelho a única criatura humana que conheci. Desde a infância habituara-me a ele e não havia como temê-lo. Vê-lo diariamente, minha grande aventura. Contemplava-lhe a figura trêmula, hesitante, de olhos escuros, amáveis. O espelho possuía de medo o rosto branco. Tinha de medo o rosto. Aquele belo rosto quase sempre triste levou-me a admitir, em algum lugar, outros rostos, outras pessoas, outros medos, outras lágrimas. Esqueci-me de dizer que, se nenhuma dessas criaturas parece alegre, nenhuma também se mostrou ainda triste. É deveras sombrio. Existe em tudo grande ordem. Jamais vi alguém subir correndo uma escada, saltar dois ou mais degraus. Fazem-no um por um, meticulosos. Sou obrigada a seguir o que se estabeleceu ou desperto cólera. Começo a perder a noção do tempo. Acompanhando o crescimento do espelho acompanhei meu próprio crescimento. Vendo-o se transformar, tive consciência de minha infância perdida. Cada vez mais o espelho se tornava adulto, o que me obrigava a admitir-me também assim. Já não sei, mas talvez eu esteja quase velha. Tenho chorado muito. As caras de cimento armado acusam meu rosto molhado de deterioração. Mas é que tenho chorado. Diariamente tomo entre as mãos a caixa onde estão os restos mortais do meu amigo. E sofro. Sozinha, sem outro rosto, outra esperança, é-me impossível voltar a acreditar.

Do site e revista editado por Sônia Coutinho:
http://www.sidarta.blogger.com.br/2003_03_30_archive.html

Revista Cidade do Sol

Acabo de começar uma revista com meu pai:

http://lucemiro.tripod.com/revistacidadedosolbomdespacho/

Confiram.

Terça-feira, 8 de Julho de 2008

O Pai de Família e Outros Estudos

O Pai de Família e Outros Estudos, de Roberto Schwarz (resenha de Lúcio Jr.)

Relançado nesse ano de 2008 pela Companhia das Letras, o conjunto de ensaios O Pai de Família e Outros Estudos cobre um vasto período: de 1964 a 1978. O que salta aos olhos do leitor contemporâneo é o enfoque sociológico e o vocabulário marxista, sempre tratando de luta de classes, dialética, revolução, palavras de um pensamento distante do senso comum e, hoje em dia, banido da mídia e evitado por parte da intelectualidade e – aí uma grande diferença para o período coberto pelos ensaios – também uma parte da esquerda, que trocou-o pelo vocabulário de Foucault e Deleuze, ou mesmo por um socialismo cristão estranho a esse marxismo ateu e agudamente cético. Outra parte da esquerda, o Movimento Sem Terra, direciona simpatias para o nacionalismo dos anos 50-60, claramente evitado e descartado pelo marxismo de Roberto Schwarz, no fim das contas, o marxismo acadêmico por excelência no Brasil, sendo de talhe bastante original: foi gerado no famoso seminário de O Capital que deu até presidente da república de posição política situada no extremo oposto do marxismo. Deve-se ter em mente a principal característica desse marxismo: ele rompe com o antiimperialismo de esquerda, deixando de lado a esquerda nacional-popular (especialmente a carioca: ISEB e CPC da UNE). A antipatia de Schwarz estende-se também ao PCB, travando-o e impedindo até mesmo que ele escreva um ensaio sequer sobre os romances realistas socialistas de Jorge Amado. A muitos, atualmente, essa observação soará como elogio. Serve ao leitor que imaginar que essa crítica é uma crítica militante: não é bem o caso. As preferências estéticas são voltadas para o século XIX e reagem à vanguarda, ainda que elogiando alguns de seus expoentes (no caso desse texto, Kafka): preferem o realismo crítico pessimista de Machado de Assis.

Dentre esses ensaios, o mais citado e repercutido é o Cultura e Política 1964-69, que tornou-se bibliografia obrigatória para quem quer estudar os anos 60 no Brasil, embora seja uma visada que vai da ideologia à vanguarda, passando pela universidade. Vale por ser um texto crítico e não deslumbrado, mas seria também importante buscar outras informações sobre o Arena, Oficina, Cinema Novo, dentre outros. Porém, fornece uma comparação rica se lido paralelamente à visão culturalista/midiática de Zuenir Ventura sobre 1968.

O seu equívoco principal, ressaltado pelo próprio Schwarz, é que o país asfixiado pela ditadura em 1964 não seria muito diferente daquele de 1978, no que ele próprio admitiu estar equivocado em uma nota antes das “notas” primeiramente publicadas no Les Temps Modernes, a revista de Sartre e Simone. A publicação causou frisson na época. Caetano leu, gostou em parte, Glauber leu e respondeu irritado para a Veja, tentando polemizar com um Roberto que nunca o respondeu. A partir dele, passou-se a estudar o tropicalismo dentro da academia. A parte mais bem articulada é aquela em que ele analisa o teatro, que é uma área que ele domina melhor. Nas outras áreas ele basicamente antagoniza e critica a vanguarda dos anos 60, o que gerou reclamações de Caetano de que o esquema desse artigo seria empobrecedor (cf. Verdade Tropical).

O material do livro é eclético, só não tem Machado de Assis (a especialidade de Roberto). As críticas de livros são de amigos em sua maioria, comentados com simpatia: Zulmira R. Tavares, Paulo Emílio Salles Gomes. Há textos de combate político (folheto de Bertha Dunkel) e de combate a opositores do momento (o grupo de Júlio Medaglia e Damiano Cozzela, ligados a Haroldo de Campos, Augusto e Caetano Veloso), assim como o resgate de Kafka para a crítica social, provavelmente inspirado em Walter Benjamin. Incluem-se cartas, entrevistas e até mesmo uma estranha tentativa de ficção erótica (Utopia). Dessa variedade é que o livro tira sua originalidade e é a partir dela que mantêm vigor apesar do passar dos anos.

A vertente dita formalista da crítica literária também foi alvo de ironias. O maior problema com a crítica formalista é o método estruturalista, então muito em voga. Essa moda fez o grupo de Schwarz passar de uma posição revolucionária a uma de resistência. Portanto, ao contrário da imagem do marxista como radical, deve-se ler o marxismo desse texto como posição moderada, intermediária.

Segunda-feira, 7 de Julho de 2008

Blog do Jorge Schweitzer

Vi agora uma citação do meu nome no blog do Jorge Schweitzer:

http://jorgeschweitzer.spaces.live.com/

O negócio foi o seguinte: fiz um monólogo absolutamente surreal que inventei inspirado na Blognovela do Gerald Thomas. O monólogo ainda está nos comentários do blog dele no ig, eu não tenho mais como retirá-lo depois de mandado. No texto, ficava claro que era tudo inventado; eu citei Jorge Schweitzer inspirado nessa entrevista que ele fez com o Gerald, no fim das contas, como ele diz, uma grande zoação.

Foi uma brincadeira, mas Schweitzer levou a mal. O verdadeiro objetivo era ironizar Olavo de Carvalho e mostrar indiretamente ao Gerald que eu tinha visto a entrevista. Gerald até agora não se manifestou. Jorge: você sabe que não foi um equívoco e sim uma brincadeira, já mandei um e-mail para vc pedindo desculpas, etc. Coloque um linque para cá no seu blog, para que seus leitores tenham acesso a essas explicações, pelo menos. Você não diz ter tanto compromisso com a verdade?

O fato é: assim como Gerald não gosta do Fidel, eu não gosto do Olavo de Carvalho. Ele tem talento filosófico, mas o desperdiça fazendo propaganda anticomunista barata, querendo fazer o debate político e cultural retroceder ao tempo da Guerra Fria.

Nesse debate entre Gerald Thomas e Reinaldo Azevedo, acho que o Gerald tinha razão desde o começo: não se deve igualar a ditadura militar brasileira, ilegítima desde o começo, com a revolução cubana, amplamente apoiada por toda a população, gerada pelo combate a uma ditadura. Se Gerald preferiu evitar o embate e reconciliou-se com Azevedo, tudo bem. Mas eu acho o Azevedo um blogueiro profissional, ponta de lança de um projeto de poder, agindo sem limites. Prefiro Luís Nassif. Prefiro Mino Carta, sabe, Schweitzer? Eles me parecem ter limites, agindo conforme uma ética. Prefiro.

Eu mesmo já fiz esse tipo de confusão. Já troquei acidentalmente Olavo de Carvalho por Otávio, confundindo-o com Otávio de Faria, escritor católico politicamente próximo ao integralismo. Como ambos são conservadores, misturei-os. Mas existe uma grande diferença de qualidade. Otávio de Faria escrevia bons romances e ensaios. Olavo não produz arte.


Hoje Otávio de Faria só é lembrado por ter colocado o personagem Roberto Dutra, no romance Mundos Mortos, apaixonado por um personagem chamado Carlos Eduardo. Numa biografia do Vinícius de Morais, o autor insinuava que Vinícius era esse personagem Carlos Eduardo e a partir disso especulava sobre a sexualidade do poeta. Foi uma grande polêmica na época (uns dez anos atrás ou mais). Eu li o romance em questão (Mundos Mortos) e garanto que Roberto Dutra nada teve com Carlos Eduardo: era algo platônico, que só existiu na mente de Roberto, nunca tendo sido externado. O texto, muito pudico, apenas dá a entender apenas que talvez Roberto se masturbasse pensando no colega.

Eu acho tudo isso apenas curioso e pouco relevante para entendermos o poeta Vinícius. Pode ter sido uma jogada do biógrafo, pois biografia em geral investe nessa questão da homossexualidade para vender: a do Paulo Coelho que saiu agora diz que ele teve uns três casos gays, a do Torquato que saiu há algum tempo especula uma paixão por Caetano, etc. Mas isso já não tem nada a ver com o debate acima...